Não 1 Não 2

Tempo do Sonho cap.2

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Capítulo 2

 

Eu me lembro de como nos comunicávamos por cartas. Nós compensávamos o tempo que elas levavam para atravessar o Atlântico escrevendo várias conversas em apenas uma correspondência. Numa carta era possível contar-te sobre como estava a fratura do nariz, ao mesmo tempo em que te perguntava sobre a vida em Milão, e te respondia sobre o que havia acontecido na Páscoa. As cartas ficaram todas guardadas, mesmo as mais dolorosas, as últimas, que puseram fim em nossas conversas. Cada erro e deslize do dia que finalmente nos encontramos pessoalmente, esses surgem embaraçosamente de vez em quando. Minha timidez de adolescente disfarçada em segurança para te impressionar. E depois de tantas conversas que viajavam quilômetros para serem respondidas, ficamos os dois olhando um para o outro como dois completos desconhecidos numa festa, sem saber o que dizer. Não fosse o meu ego, Liz, hoje estaríamos felizes juntos.

 

*        *        *

–Vejo que está com sorte hoje, senhor…?

–Raoír – completei.

–Normalmente os que vêm aqui não são assim tão bem tratados como o senhor. Entenda-nos, por favor, trata-se de um negócio discreto, discrição na verdade é tudo o que buscamos e não podemos nos dar ao luxo de receber qualquer um que apareça á nossa porta.

–Eu compreendo.

–O homem com quem vai conversar agora permitiu que entrasse quando mencionei o revólver que está portando. Naturalmente o senhor sabe o que ele significa, sim?

–É claro – meu pai havia me deixado aquele revólver. ­–Já posso entrar?

–Por favor – o sujeito esguio de óculos redondos curvou-se até a maçaneta abrindo a porta num gesto que combinava reverência com certa agilidade.

A porta guardava um escritório que sem dúvida em nada se parecia com a sala de recepção, enquanto uma era estéril ocupada apenas por nada além de uma mesa, um telefone, e um secretário o outro era um cômodo fenomenal, o que eu via agora se assemelhava a um museu. Havia um mapa antigo, porém completo de todos os novos e novíssimos continentes, estendido por toda parede do fundo. A esse acompanhavam algumas molduras nas paredes do que pareciam ser cartas de navegação, também antigas, e pelo zelo com que foram emolduradas provavelmente eram as originais.

Entretanto só foi possível observar a decoração por um breve momento, depois que enfoquei a figura sentada a minha frente era impossível desviar o olhar. Era um homem calvo, rechonchudo, curvado levemente sobre sua escrivaninha, mas nada me chamou mais atenção do que o par de luvas brancas que ele usava em um dia ensolarado de janeiro.

Ele estendeu a mão indicando-me a cadeira onde eu deveria me sentar.

–Dois mil e onze – disse. – Dois mil e onze anos. São dois milênios, disso já não há dúvida, mas onze anos…

Eu o olhava firmemente e ele retribuía sem desviar. Fez uma pausa, entrelaçou os dedos e continuou.

–O senhor recebeu uma ligação às duas horas da tarde José Heitor, – me assustei ao ouvir meu primeiro nome sendo pronunciado por um desconhecido – nessa hora você já estava acordado por que na noite anterior foi dormir pouco antes das seis da manhã, e você dorme exatamente oito horas por dia.

Eu suspirei enquanto procurava um sentido no que eu ouvia. O gordo de luvas brancas riu na forma de um grunhido.

–Me agrada perceber sua ignorância. Sim, oito horas por dia, nem um segundo a mais. Já se perguntou por que nunca tirou uma soneca, ou nunca acordou no meio da noite para beber água? São oito horas ininterruptas e com a precisão de um cronômetro! ­– Ele abriu um sorriso delgado. – Oito horas para que você deixe aquele mundo… Sim, nós sabemos deles, o que eles dizem, o que ensinam; e nós sabemos de você José Heitor Raoír Filho. ­– Um fogo consumia meu estômago e vinha subindo continuamente enquanto minhas mãos congelavam.

–O sangue que neste momento acaba de deixar o seu rosto, – Fechei os olhos a tempo de ouvir – é meu.

 

*        *        *

 

A cada mordida uma nova tentativa começava, disso eu me lembro.

Uma savana amarela e verde se estende por todo o horizonte distinguido apenas por algumas acácias distribuídas muito regularmente. Eu me pergunto quando acordo se este lugar realmente existe.

– O dente encaixa na mão do guerreiro – disse ele mostrando sua mão negra e forçando os dedos na forma de uma garra. Assenti humildemente com a cabeça, envergonhado por não estar conseguindo. Dara estava de pé imóvel apoiado em sua lança de guerreiro, seus olhos viraram-se para uma moita e de lá fez surgir um felino novamente. O animal se aproximava arrastando-se com seus olhos mortais que me acompanhariam para onde eu me movesse. Posicionei meu pé direito para trás e dobrei o joelho esquerdo como Dara me ensinara. O leão vinha se aproximando lentamente. Ia saltar com a boca repleta de facas afiadas onde eu deveria posicionar meus dedos antes que o ataque me derrubasse; uma vez no chão, as duas mãos deveriam abrir o maxilar da fera, matando-a. Dara havia me dito para forçar a mandíbula de baixo um pouco para direita e se possível deixar um dos dedos entrarem na narina do animal, segundo ele isso faz cócegas em leões africanos.

Minha tentativa terminou na hora de ajeitar as mãos nas mandíbulas e meus braços terminaram estraçalhados em uma gengiva ensangüentada. Não havia dor, havia sensibilidade. Eu sentia a língua do leão roçar meus dedos às vezes, mas não sentia dor quando os dentes enfim prensavam meus membros. Antes que eu notasse, meus braços estavam firmes e sólidos apoiados no chão.

– Raoír Filho – Dara me conhecia como eu conheço a mim mesmo, o que faz sentido se pensar que ele mora na minha cabeça – o leão não te machuca, ele é forte, mas não te machuca. Por que ele não te machuca?

–Porque eu sou o leão, Dara – disse.

–Sim Raoír Filho, eu faço o leão para você, faço com seus sonhos, por isso o leão é você. E você não machuca a você mesmo não é Raoír Filho?

–Não.

–Então não precisa ter medos. Medos são para o seu mundo. Tudo aqui é você: o leão, a grama, o sol, Dara…

Levantei-me do chão para mais uma tentativa, me posicionei segundo o ensinamento e esperei pelo leão. O negro continuou imóvel, com sua indumentária vermelha de guerreiro massai, ornamentada por dentes que sem dúvida já haviam dilacerado muita carne antes dele usá-los como colar.

 

*        *        *

 

Foi numa aula de biologia se eu não me engano. O professor raramente desviava um olhar para a classe, o que nos permitia ter algum momento de entretenimento conversando com o colega do lado enquanto surgiam desenhos e nomes complicados na lousa. Ao meu lado havia uma conversa sobre aniversários de quinze anos, o que me lembrou de contar ao Dan sobre a maneira singular que meu namoro com a menina mais nova tinha acabado.

–E foi assim. Eu fui embora sem entender nada, e ela menos ainda.

Ele ria de maneira compreensivelmente baixa para não ser notado, quando eu terminei a estória ele indagou:

–Já tentou conversar com a minha prima? Ela tem a nossa idade – que na época permeava os dezessete – e não tem namorado…

Na época não havia nada melhor para esquecer uma garota do que outra garota; desconfio que ainda seja assim.

–E ela é bonita? –perguntei.

–Isso é você que tem que ver, – esquivou – mas ela gosta de ler, igual a você.

–Feia e chata então? Valeu Dan… –ambos rimos, e dessa vez alto, o que chamou a atenção do professor fazendo com que ele se virasse em nossa direção. Seguramos nossas canetas numa velocidade admirável e calamos o riso. Quando o professor enfim ignorou o ocorrido e voltou-se para a lousa arrisquei uma última pergunta ao Dan.

–Como ela se chama?

Ele largou a caneta e virou-se novamente para mim, pronunciando o som monossilábico que faria toda a diferença deste dia em diante: – Liz, ela se chama Liz.

 

*        *        *

 

Recobrei a consciência antes de desmaiar no chão. Abri os olhos novamente e mirei na figura com os dedos de luva branca entrelaçados, ele retribuía sem desviar o olhar e sem extinguir o sorriso delgado.

–Vejo que está assustado com o que acabo de lhe dizer, – e eu realmente estava – mas não tema… – a voz dele tinha tomado um tom perigosamente amável. –Você recebeu uma ligação que dizia um horário e um endereço, e quem diria… você veio! Estou honrado com sua presença aqui meu jovem, e peço desculpas se causei algum desconforto.

De alguma forma o gordo com quem eu conversava agora era uma pessoa distinta daquela que havia me recebido inicialmente. O tom da voz e a feição do rosto eram diferentes, algo nele deixava de ser assustador para se tornar seguro e confiável.

– Eu lhe chamei aqui, José Heitor, para lhe contar tudo a seu respeito, tudo aquilo que seu falecido pai não teve a oportunidade de lhe dizer.

Recostei-me na cadeira como uma criança no jardim da infância que espera para ouvir sua professora, enquanto o gordo desenlaçou os dedos para pegar abrir uma gaveta que ficava logo abaixo de seu peito. De lá retirou com cuidado uma fotografia em tom de sépia.

 

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Written by Kal-el

Janeiro 29, 2011 às 3:55 am

Publicado em Textos

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