Não 1 Não 2

Tempo do Sonho – cap1

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<desistindo de Eterno Destino dos homens e começando Tempo do sonho>

<ignore os comentários (c1,c2, etc…)>

Capítulo 1

 

“Aperte firme. Isso. Agora puxe. Viu como ele gira?”

José Heitor sorriu diante do mecanismo. Apertou o cão de novo e viu o tambor girar mais uma vez.

“Agora vamos por bala”.

Seu Raoír ajoelhou-se junto ao filho, pegou duas balas no cinto do coldre e colocou no tambor. Pegou junto na empunhadura, para ajudá-lo a agüentar o tranco. Com a outra mão apontou para um toco de cerca. Alinhou a mira, deixou o cão puxado e esperou o filho puxar o gatilho.

O som ecoou e o cheiro de pólvora subiu no ar. O garoto sorria.

José Heitor iria se lembrar do pai ensinando-o a atirar com o velho revólver[c1] quando estivesse diante da última morte.

“Atirar você pega o jeito enquanto for virando homem…”

Pegou a arma num só movimento e disparou. A bala acertou o mesmo toco.

“Mas tem que saber aonde atira”.

 

*        *        *

–No fim das contas, é só um cara com um revólver.

Ele estava certo. Não havia nada sobrenatural naquela sala, na verdade, era apenas uma sala escura em algum lugar no interior de São Paulo, iluminada por um lampião e com dois homens dentro olhando para mim caído no chão sobre uma poça de vômito.

–É um bonito colete esse que ele está usando – disse um dos homens enquanto me cutucava com sua bota de couro de avestruz – pele de cobra, muito bem feito.

Ele nem imaginava.

– Pode ficar com o colete depois que o matarmos.

Um deles me revirou da poça de vômito com o pé. Os dois olhavam para mim com certa piedade, como se matassem um animal indefeso. Dava pra saber isso mesmo sem estar enxergando totalmente.

– Sabe, é estranho…

– O que é estranho?

– Lembra do que nos disseram sobre ele? Toda aquela coisa de ter treinado a vida toda, de ser da Descendência… Não é estranho que tenhamos conseguido pegá-lo tão facilmente?

– Sim, bem… Acerte na cabeça, eu explico no caminho.

Senti o gosto de sangue de volta na boca e algumas palavras que eu ouvi começaram a fazer sentido. Isso era um alívio, estava enfim acordando – dragões de ferro se contorcendo[c2] .

– Anda, atira!

Aproximei a mão da cintura e toquei o coldre do revolver. Vazio. O cheiro do vômito, que provavelmente era meu, foi a prova de que eu precisava para ter certeza que estava acordado, você sabe… não existem cheiros nos sonhos. As costelas doíam cruelmente, senti que meu rosto tinha virado gelatina de tanto apanhar.

– Droga, ele tá acordando! Atira logo!

 

*        *        *

 

Sentia o gosto da água da chuva na minha língua, aí quando o primeiro pensamento se formou foi como se houvesse um leve impacto e minha língua estava seca. Às vezes é difícil saber o momento em que o sonho termina e a realidade começa, a chuva do meu sonho sendo tragada pelo vazio do meu quarto e a língua secando foi esse momento. Pelo calor que fazia eu imaginava que havia um sol ardendo lá fora, já passara do meio-dia. Alguns feixes de luz atravessavam a janela cortando o ar empoeirado, a atmosfera era densa e quente, não havia ar condicionado ou ventilador. Ficaria agora deitado por um longo tempo, lembrando do que tinha sonhado; minutos mais tarde talvez eu já não me lembrasse de nada.

Por fim levantei – dragões de ferro se contorcendo -, fui até o banheiro e mirei-me espelho por alguns momentos. Peguei a navalha para fazer a barba; o enorme poder contido naquele objeto, tão descartável e frágil, me fascinou durante um momento. Rodei-o nos dedos como costumava fazer com a faca de caçador, eu aprendi como se corta o couro de gnu para fazer uma manta, aprendi nos meus sonhos.

Acordar tarde tem seus benefícios quando se leva em conta que a noite demorará menos a chegar. Mesmo em nosso verão do hemisfério sul, em que os dias são mais longos, existe como que uma grande preocupação das pessoas em ter feito tudo o que puderam antes do sol começar a baixar, para que a noite chegue representando o grande alívio de mais um (ou menos um) dia vivido. Eu me levanto quando restam não mais que quatro horas de claridade. O crepúsculo não tarda a envelhecer o céu e logo as luzes da cidade se acendem transformando o perpétuo azul claro num roxo leitoso com pontuações elétricas alaranjadas. Do crepúsculo acrescentam-se alguns minutos de escurecimento como uma pálpebra se fechando lentamente, e aí o céu se esvazia de cor. A noite é uma grande companheira para os solitários.

No bar, uma garrafa de uísque, uma conversa casual com o garçom. Eu costumo me sentar no balcão, de costas, observando o que acontece, naquela noite eu havia demorado mais do que de costume para pressentir uma briga. Os dois sujeitos que jogavam sinuca provavelmente não notaram que a borda da mesa não é o melhor lugar para se deixar o copo, eles naturalmente caem, e quem passa por perto naturalmente é culpado por isso. Naturalmente ocorre uma discussão.

Eu observava os tacos, ostentados pelos dois jogadores como lanças. Uma piada imaginar aqueles dois segurando realmente uma lança aborígene de dois metros, feita por um velho caçador cansado demais para arremessá-la e correr. Eu saberia usar essa lança, eu aprendi nos meus sonhos.

Um dos homens gritou algo – parecia estupidamente fora de controle – e chutou o outro na barriga. O bico de uma bota de couro de avestruz acertou naquele ponto onde as costelas começam a se encontrar, o grito e o cair de joelhos confirmavam meu palpite: era seu fim, hora de levá-lo para casa ou talvez para o hospital. Infelizmente, a arte da briga de bar muito se assemelha a pintura de telas, em que o artista precisa ter o dom de saber onde parar; e o artista em questão não o tinha. Chutou a cabeça do sujeito ajoelhado fazendo-o cair de lado – um golpe sem técnica, grosseiro, desonroso. Talvez fosse hora de agir.

Aproximei-me devagar por trás do agressor, colocando a mão no ombro dele.

–Amigo, acho que por hoje está bom – disse-lhe lançando um sorriso e mostrando o revólver velho no meu cinto. Senti algo quebrando na minha cabeça e só acordei horas mais tarde com o cheiro do meu vômito. Não nego que esta foi a primeira vez que eu tentei bancar o herói.

 

 

*        *        *

 

 

Existe um universo dentro de cada um de nós. Ele se abre a cada noite, e o que vivemos lá é tão real quanto o que chamam de realidade. Os antigos aborígenes da Austrália chamavam-no Tempo dos Sonho[c3] , uma vida paralela onde o guerreiro aprendia lições de seus antepassados. Cada mulher da tribo possuía uma canção, que fora passada por sua família de geração a geração, e era seu dever cantá-la para seu marido nas primeiras horas de sono. A canção era a chave do Tempo dos Sonho.

Toda vez que eu dormi, vaguei pelo Tempo dos Sonhos; mas assim como as pessoas dizem não se lembrar de todos os seus sonhos, eu também não me lembrava de tudo.

A armadilha no bar – uma briga que provocaram para que eu, de alguma forma, me envolvesse e fosse levado para algum lugar distante onde me matariam–, foi plano de um homem, um homem muito inteligente que me quer morto. Os dois homens na cabana são seus empregados, como eu descobri mais tarde. O primeiro era policial, mas começou a trabalhar por conta própria ganhando por algum serviço sujo; o segundo tem algo que eu vim a conhecer como Descendência.

Um guerreiro massai ensinou-me uma vez como se torce o maxilar de um leão africano; ensinou-me em meus sonhos. Eu matei os dois naquela noite, usando apenas minhas mãos.


[c1]Apenas 1 revolver a historia toda. Esse.

[c2]Frase de efeito quando acorda.

[c3]Os aborígenes acreditam em duas formas de tempo, duas correntes paralelas de atividade. Uma delas são as atividades objetivas diárias, a outra é um ciclo infinito espiritual chamado de “Tempo do Sonho“, mais real que a própria realidade. Aconteça o que acontecer, o Tempo do Sonho estabelece os valores, símbolos e as leis da sociedade aborígene. Acredita-se que algumas pessoas com poderes espirituais incomuns tenham tido contato com o Tempo do Sonho.


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Written by Kal-el

Janeiro 18, 2011 às 2:26 am

Publicado em Textos

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